quinta-feira, setembro 22, 2005

Tão, Dão e Tião

Tão é um sujeito tão enigmático que não se pode defini-lo com tão poucas palavras. Tão logo amanhece o domingo, Tão sai à procura de sua tão necessária cachaça vespertina, tão sóbrio que nem cumprimenta os transeuntes. Estes, de tão preocupados em ir a primeira missa do dia, não percebem a existência involuntária de Tão. Tão é tão imperceptível quanto um cão numa Festa de São João. Já a Festa de São João é tão imperceptível para Tão quanto para um cão. E o cão, esse nunca compreendeu as idéias de Tão e o significado da Festa de São João, talvez por serem os cães um tanto quanto céticos e indiferentes ao espírito cristão.
Entrando no boteco do Tião, Tão encontra o Dão que irá pagar-lhe uma pinga, teoricamente, por ser tão caridoso e solícito. Poderíamos até dizer que, então, Tão, Dão e Tião se dão muito bem. Ledo engano: Tião odeia o Tão, mas atende o Dão porque este paga a pinga do Tão que não gasta nenhum tostão. Já o Dão paga a pinga do Tão só para enfurnar o Tião, que aceita o meio tostão por ser demasiado avarento. O Tão aceita beber a pinga porque num devaneio de inveja, crê que a cada pinga, o dinheiro de Dão escorra pelos dedos de sua mão, tornado-o seu irmão na miséria e solidão. Tomada a pinga, há um silêncio sepulcral no ambiente. Os três se entreolham durante um breve instante. Há um consenso de que tudo está de acordo com a natureza humana, os búzios e o alinhamento dos quatrocentos e cinqüenta milhões de planetas do sistema solar. Num movimento calmo e calculado, Tião fecha a porta entreaberta do boteco, enquanto Tão e Dão já o esperam do lado de fora. E lá se vão os três, Tão, Dão e Tião curtirem o domingão antes que chegue o Zoca...