Pecado capital
Pecado Capital
(Retirado do livro Dicionário Filosófico – Voltaire)
O pretexto trifunfo dos socianianos e dos unitários reside no pecado original. É assim que designam a este fundamento da religião cristã. Afirmam que é ultrajar Deus, é acusá-lo da barbaridade mais absurda, ousar dizer que Deus formou todas as gerações dos homens para atormentá-los em suplícios eternos, sob pretexto de que o seu primeiro pai comeu um fruto num jardim. Tanto mais indesculpável é esta imputação sacrílega entre cristãos quanto é certo que não há uma só palavra referente a este ponto, seja no Pentateuco, seja nos Profetas, seja em Evangelhos, apócrifos ou canônicos, seja entre os escritores que são designados por primeiros padres da Igreja.
No Gênesis, não há nenhuma referência que Deus tenha condenado à morte Adão por haver engolido uma maça. Deus disse-lhe: “No dia em que comeres certamente morrerás”. No entanto, neste mesmo Gênesis faz-se viver Adão mais novecentos e trinta anos depois desse deguste criminoso.
Já os animais e as plantas, que não tinham saboreado aquele fruto, morreram no tempo prescrito pela natureza. Admitamos que o homem nasce pra morrer, como todos os animais.
Em suma, a punição de Adão não era de maneira alguma contemplada pela lei judaica. Adão não era mais judeu que persa ou caldeu. Desde todo o sempre, os primeiros capítulos do Gênesis (independentemente da época em que foram compostos) representaram aos olhos de todos os sábios judeus como uma alegoria e até como uma fábula perigosa, porquanto se proibia a sua leitura antes da idade de vinte e cinco anos.
Em outras palavras, os judeus conheceram tão pouco o pecado original como as cerimônias chinesas. Conquanto os teólogos encontrem tudo o que querem nas Escrituras, ou “totidem verbis”, ou “totidem litteris” (quer nas palavras quer nas letras), podemos estar certos que nenhum teólogo razoável encontrará este mistério surpreendente.
Reconheçamos que Santo Agostinho foi o primeiro a dar crédito a esta estranha idéia, digna da cabeça esquentada e romanesca de um africano, debochado e arrependido, maniqueu e cristão, indulgente e intolerante, que passou a vida a contradizer-se.
Os unitários rígidos exclamam “Que horror é caluniar-se o autor da natureza até o ponto de lhe imputarem milagres contínuos para danar eternamente homens que fez nascer para uma tão curta vida. Ou Deus criou as almas desde toda a eternidade e, neste sistema, elas são infinitamente mais antigas que o pecado de Adão, não tendo qualquer relação com ele; ou as almas são formadas em todos os instantes que um homem se deita com uma mulher e, nesse caso, Deus estaria continuamente à espreita de todos os encontros que ocorrem no universo, para criar espíritos que se tornariam eternamente infelizes; ou o próprio Deus é a alma de todos os homens e, neste sistema, dana-se a si mesmo”.
Destas três superstições, qual a mais horrível e a mais louca? Tentar uma quarta alternativa não ajuda, pois a opinião de que Deus espera seis semanas para criar uma alma danada em um feto reporta-se àquela que o faz criar a alma no momento da cópula. Afinal, que importam seis semanas a mais ou a menos?
Apenas expus a opinião dos unitários, e os homens chegaram a tal grau de superstição que tremi ao expô-lo.

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