A dignidade em um dia de chuva
A dignidade em um dia de chuva
Luciana Pinsky
Admirável aquele homem andando na chuva como se não fosse com ele. Eu senti o primeiro pingo, corri para a padaria, por sorte consegui sentar, já está cheia, tomo um café quentinho, chuva lá fora.
Admirável. Ele continua andando. Poderia procurar abrigo, abrir guarda-chuva, mas não. Nada. Ele atravessa a rua com uma calma atípica. Atípica para um dia qualquer, com trânsito, carros, motos, ônibus, barulho. O que dizer daquele momento em que o mundo escurecera e gotas do tamanho de laranjas atacavam o que viam pela frente, chão, asfalto, árvore, homem.
Eu vim me abrigar na padaria, café, quente, seco. Corro de tempos instáveis, uso todas as armas humanas para fugir da inevitabilidade da natureza. Acredito na ciência; e ele, não acredita que chuva molha, não?
Anda como numa missão. Um jesus sobre as águas. Mas ele está sob, sobre, envolvido... O cabelo encharcado o torna mais bonito, como se saísse do banho. Eu já estaria despenteada, descadeirada.
A malha escura gruda no peito, mas não se nota muito. Ele caminha, único pedestre na calçada outrora repleta de gente indo ou voltando do almoço. Para onde vai e por que; por que não corre como os outros, como eu? A chuva molha, mas é como se não. Será mais ou menos humano que eu? Não pensa se vai pegar resfriado, pneumonia, passar para a mulher, os filhos, faltar no trabalho, diminuir a produtividade da empresa? Ele é um egoísta, isso sim.
O café ainda quentinho, a moça pergunta se quero mais, recuso com gesto casual, como se não percebesse o mundo desabando no homem tranqüilo, como se ele não me provocasse com sua injusta calma molhada. Pingando para a sua missão. E a minha, qual será? Olhá-lo?
Por que a chuva que cai nele me molha? A água insiste em invadir-me pelas frestas da alma nesta padaria metida a besta, tomando um café metido a besta. Temo a água, me refugio e observo o maldito homem que ignora minha aflição ao ser cúmplice da chuva. Não foge. Não enfrenta. Vive a chuva. Eu era criança, vestia roupa velha e saia na maior felicidade para a água do ar seguida pela água do mar. Agora não, quantos anos que não.
Agora tento contentar-me com a cumplicidade da moça do café, que enche a xícara sem que eu perceba.
- Louco aquele cara, não? Não percebe que está todo molhado? – A moça me afasta da minha infância com cheiro de mato chovido.
- É – respondo desviando meus olhos dele por dois segundos e mirando a xícara novamente cheia. É tempo suficiente para que ele desapareça.

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